FATO

A MORTE DO PADRE E O SILÊNCIO DA PROVIDÊNCIA Há acontecimentos que trazem consigo uma advertência tão grave, que qualquer comentário apressado corre o risco de empobrecê-los. Um deles ocorreu recentemente em Guayaquil, no Equador, quando o padre Patricio Alfredo Sánchez Molinari morreu atingido pela queda de uma cruz, pouco depois de recordar aos fiéis, durante uma Missa, esta verdade que todos conhecemos, mas que em geral vivemos como se fosse mentira: a morte pode chegar a qualquer instante. O padre acabara de advertir os presentes de que era necessário dar tempo a Deus, porque a vida pode terminar subitamente. Pouco depois, sua advertência adquiria uma dramaticidade terrível: ele próprio estava morto. Há coincidências que nos deixam pensativos, e há acontecimentos diante dos quais o espírito religioso não pode permanecer indiferente, embora deva resistir à tentação de explicar aquilo que Deus não lhe revelou. Para um cristão, nada sucede fora dos desígnios da divina Providência: nem a queda de uma folha, nem o movimento de um grão de areia, nem a morte de um homem escapam ao governo daquele que sustenta todas as coisas na ordem do ser. Mas reconhecer a universalidade da Providência não significa possuir a chave de seus decretos particulares, pois uma coisa é saber que Deus governa tudo; outra, muito diferente, é presumir conhecer por que permitiu este ou aquele acontecimento. É aqui que a presunção religiosa pode converter-se numa forma particularmente repugnante de imprudência, ou mesmo de crueldade. Quando uma desgraça atinge alguém, não faltam os que se apressam a procurar na vida da vítima alguma culpa que a explique, como se a prosperidade fosse sempre sinal de aprovação divina, e a calamidade, prova inequívoca de condenação. Ou como se os caminhos da Providência fossem tão rudimentares que pudessem ser decifrados pela frágil aritmética das nossas suspeitas. Ora, contra semelhante simplificação ergue-se, com impressionante vigor, o Livro de Jó. Vejamos: Jó perde seus bens, seus filhos, sua saúde e quase tudo quanto fazia de sua existência uma vida humanamente invejável. Seus amigos, diante de tantas desgraças, procuram convencê-lo de que tamanhos sofrimentos não poderiam ter sobrevindo a um homem verdadeiramente justo. Alguma culpa grave deveria estar escondida sob aquela consciência que não o acusava. Mas Jó resiste, não porque se considere impecável, e sim porque sabe que não cometeu as iniqüidades que seus acusadores pretendem atribuir-lhe. Seus amigos, incapazes de compreender o mistério da permissão divina do sofrimento, transformam uma conjectura em sentença moral condenatória. E, ao final, é o próprio Deus quem os repreende: "Não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó" (Jó, XLII, 7). Aqui a lição é tremenda: pode-se falar incessantemente de Deus e, não obstante, falar falsamente de seus desígnios. Séculos depois, Nosso Senhor Jesus Cristo enfrentaria uma interpretação semelhante diante de uma tragédia ocorrida em Jerusalém: "Julgais que aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, e os matou, eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, digo-vos; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo" (Lc XIII, 4–5). Atente-se a esta resposta de Cristo. Ele não declara que os dezoito mortos fossem inocentes, tampouco revela o estado de suas almas: simplesmente recusa a conclusão de que a violência da morte seja a medida da gravidade dos pecados pessoais. E faz algo ainda mais importante: volta a sua grave advertência para os vivos. Em vez de satisfazer a curiosidade acerca das culpas dos mortos, Nosso Senhor exige dos sobreviventes a consideração de sua própria condição moral. Ora, a torre caiu sobre dezoito homens, mas a advertência dirige-se a todos nós. Eis o ponto. Quando um sacerdote adverte seus fiéis de que a morte pode chegar inesperadamente e, instantes depois, morre atingido pela queda de uma cruz sobre a sua cabeça, não sabemos por que Deus permitiu que precisamente aquele homem, naquele lugar e naquela hora, tivesse semelhante fim. Seria temerário apresentar a tragédia como castigo por alguma culpa pessoal; seria igualmente temerário pretender conhecer, por revelação que não recebemos, todas as razões particulares da Providência. Mas há algo que podemos afirmar sem temeridade: o acontecimento constitui, para nós, uma ocasião extraordinariamente grave de meditação sobre a morte, o juízo e a necessidade de conversão. A advertência do sacerdote não perdeu sua força com a sua morte; pelo contrário, adquiriu uma eloqüência que nenhuma habilidade oratória poderia produzir. Em síntese, o homem que dizia aos outros que a vida podia terminar subitamente não sabia que estava pronunciando, também para si mesmo, a última advertência de sua existência terrena. E aqui reside o aspecto mais impressionante do episódio: não foi necessário que o sacerdote estivesse errado para que a morte o surpreendesse; foi precisamente quando anunciava uma verdade que ela chegou. Assim, o pregador se tornou, involuntariamente, testemunha daquilo que pregava. Não nos cabe transformar sua morte numa acusação contra ele. Cabe-nos, isto sim, perguntar se estamos preparados para ouvir a advertência que a sua morte nos dirige. Porque a Providência divina não se reduz ao castigo dos maus nem à recompensa temporal dos bons, pois Deus permite sofrimentos aos justos, concede prosperidade aos pecadores, corrige, prova, purifica e ordena acontecimentos particulares a fins que freqüentemente excedem toda a nossa capacidade de compreensão. O erro dos amigos de Jó consistiu em pretender julgar a justiça de um homem pela extensão de suas desgraças. O erro daqueles que Cristo repreendeu consistia em supor que os mortos de Siloé fossem mais culpados do que os sobreviventes. O nosso erro seria repetir a mesma presunção diante do sacerdote morto. Não sabemos como Deus julgou aquele homem. Não sabemos quais graças lhe concedeu em seus últimos instantes. Não sabemos que bens espirituais poderão resultar de sua morte. Sabemos, porém, que todos morreremos, e sabemos que nenhum de nós recebeu a garantia de dispor do dia de amanhã para fazer aquilo que deveria fazer hoje. A cruz que caiu sobre o sacerdote não nos autoriza a condená-lo, mas a sua morte, ocorrida logo após tão grave advertência, deveria impedir-nos de continuar vivendo como se fôssemos imortais. Os dezoito de Siloé morreram sob uma torre; o sacerdote morreu sob uma cruz; e nós, que permanecemos vivos, somos os verdadeiros destinatários da advertência. Que Deus tenha misericórdia de sua alma, assim como das nossas, quando chegar a hora fatal que ignoramos.

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